sábado, 6 de novembro de 2010

Pai

Ele podia ser ranzinzo, retrógrado e careta. Mas hoje acordo e não sinto o cheiro do café. Não tem mais aimpim na panela e nem o rádio ligado na frequência AM. Não tem mais ninguém pra me dar bom dia quase resmungando. Me fazer perguntas que odeio responder. Não ouço mais o barulho do sugar do café quente, do arrastar da sandália, da bicicleta. Ninguém mais assovia quando chega. Nem me pede favores chatos, como comprar cerveja no domingo com várias moedas ou acessar o email do Yahoo!. Não acordo mais com a música favorita dele. Não mando mais fazer silêncio porque ele está dormindo. Nem venho correndo pra casa quando é tarde para ele não me dar bronca. Ninguém muda o canal da TV quando estou assistindo e nem pede para que eu saia do computador. Ninguém assiste mais ao meio-dia programa sensacionalista. Não fico chateada quando ele faz besteira. Não recebo mais os recados que ele me dava. Não vejo meu cachorro alegre quando ele chega, porque ele não chega mais. Já faz tempo que se foi e não mais voltou. Nem pra dizer como estão as coisas. Não sei quando ele sente dor e nem se o remédio acabou. Na geladeira não tem mais coca-cola e vinho. Ele não compra mais o pão. Não tem mais doce de leite ou goiabada na geladeira. O pó do café continua no armário e ninguém usa. Não existe mais suco sem açúcar feito por ele. Também não tem aquele cheiro de gordura na cozinha e ninguém mais suja o fogão de óleo. Ninguém guarda mais os pratos no armário como ele fazia. Ninguém me fala pra ler a notícia do jornal. E nem ele lê mais as minhas notícias. Ninguém sai pra jogar bola dia de sexta. Ninguém reclama e diz "que eu sou a única que tem aula até a noite". Ninguém ronca mais no sofá. Não o ignoro mais na rua porque não o vejo, nem de relance, nem mesmo ouço falar. Quando as pessoas me perguntam, não sei dizer onde ele está. Não sei! Ele se foi e não disse adeus. Deixou saudade e dor.

3 comentários:

Renata F.C disse...

Nossa Lolynda, você escreve cada vez melhor, mas espero que seja só um texto, espero que esteja tudo bem, abraços fortes e beijos!!!!
Mesmo triste e lindo.

Larissa Bohnenberger disse...

A ausência, principalmente quando sem explicação, dói muito! Lindo texto!

Jô Moraes disse...

Bem sei eu que na hora que a ausência dói, não adianta ouvir nada. E sei que depois de um tempo o que ficará serão a lembrança dos bons momentos.
Um abraço apertado.

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