domingo, 14 de novembro de 2010

O negro, o pobre e o olhar enviesado

“Os interesses cristalizados produziram convicções escravocratas arraigadas e mantêm estereótipos que ultrapassam os limites do simbólico e têm incidência sobre os demais aspectos das relações sociais” (Milton Santos)
Castigo na escridão. Imagem do Google

Está acontecendo em minha cidade uma festa de caráter popular. Realizada na segunda quinzena de novembro, a festa celebra a padroeira dos senhores de engenho, Nossa Senhora da Ajuda. Na verdade ela é mais profana do que religiosa e trás um histórico marcado por tradições populares, criadas principalmente por negros. [Ver história em: Origem da festa D’Ajuda possui marcas históricas do século XIX]

Os festejos são acompanhados por ‘embalos’, fanfarras com instrumentos de sopro e percussão que percorre ruas da cidade cantando marchinhas e cantigas populares ou satíricas.

A população da cidade participa ativamente. O negro e o pobre estão lá. Possa ser que até o ladrão, mas ele pede folga para se divertir. Contudo, mais uma vez vemos aquela cena que passa nos programas sensacionalistas da televisão depois do carnaval: o negro e o pobre apanhando que nem escravo no tronco. Mudam-se os tempos, mas o os personagens são os mesmos. O policial continua sendo o feitor e o cidadão comum marginalizado o escravo da sociedade de consumo.

Durante toda a euforia popular do bloco de rua puxado pela fanfarra, uma mulher é abordada pela polícia. Esteriótipo: negra, mal-vestida, pobre e com uma bolsa a tira-colo. Ela foi revistada por – das duas, uma - ou suspeita de roubo ou por tráfico de drogas. Enfim, ficou assustada e disse que não tinha nada demais na sacola. Muitas pessoas passavam, olhavam curiosamente e eu podia supor que ali dentro não tinha nada além do que ‘quinquilharias’. Por que supor? Sempra a vejo na minha rua indo pedir comida na casa da vizinha ou pelas esquinas catando papelão. Resultado: os policias não encontraram nada e a dispensaram. O que sobrou? Constrangimento.

No texto Ser Negro no Brasil (2000), Milton Santos escreve  que “ser negro no Brasil é, pois, com frequência, ser objeto de um olhar enviesado. (...) É frequentemente ser objeto de um olhar vesgo e ambíguo”. O negro na sociedade passa despercebido. O governo cria programas para inserção social, mas é sempre o negro que está atrás da cela por ter roubado um pacote de leite no mercado, que apanha na festa de rua, pede esmola, mora embaixo do viaduto ou chora por um pedaço de pão.

Na semana da Consciência Negra, vejo uma mulher negra sofrendo uma repressão policial por uma suspeita qualquer. Mas, suspeita maior pela cor da sua pele. As diferenças sociais e econômicas estruturais seculares que Milton Santos escreve no texto continuam e todos os dias me questiono que tipo de pessoas estamos criando para nosso país e até quando o negro vais ser visto com esse olhar enviesado.

Um comentário:

Denise do Egito disse...

Eu acho sim, que ainda existe preconceito racial no Brasil. Mas acho que acima dele está o social. Porque se o negro está bem vestido, circula num carrão e tem dinheiro, todo mundo vai tratar super bem como se ele fosse branco de olhos azuis. O dinheiro sempre fala mais alto.
Um beijo pra você

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