quarta-feira, 20 de maio de 2009

Devaneios juvenis

“Existem cartas param serem enviadas.

Existem cartas para serem escritas. E emboladas.

(Essa é para ser embolada).”

Fernanda Mello



Santo Inácio, 16 de outubro de 1998.

Essa manhã acordei como de costume: com mal-humor. Mas o dia lá fora estava lindo. Os reflexos do sol adentraram pela janela do meu quarto e a aquecia com aquela vibração matinal. Os pássaros cantavam lá fora anunciando mais um dia da primavera de outubro.
O meu mal-humor nada tem a ver com o meu estado de espírito, mas me é inerente - só pelo simples fato de saber que vou ter que desgrudar do meu travesseiro e encarar mais um dia.
Às vezes me sobra muito espaço naquela cama de casal que você tanto gostava de dormir nos domingos depois do futebol, às vezes me sinto pequenininha enrolada naquele edredom floral que você achava a "minha cara", às vezes prefiro dormir no sofá-cama a ter que ver seu rosto em memória sorrindo e sentindo suas mãos alisando os meus cabelos. Quando me visto e olho para trás não ouço mais aquela voz dizendo o quanto que estou linda.
É, tudo mudou desde que você decidiu não bater mais naquela porta da Rua Rebouças, número 16; desde que deixou de ligar para meu aparelho de telefone rosa e cafona, para o celular descascado e que a cada "eu te amo" descarregava; desde que parou de mandar e-mails para minha caixa de entrada do Hotmail.
Hoje rio quando lembro das lágrimas que derramei, daquelas brigas bestas por causa do brigadeiro que você comeu na geladeira, da cueca que você me pedia pra lavar, da toalha molhada em cima da cama e principalmente do que eu disse quando você me virou as costas: "Não vou conseguir viver sem você!" E - engraçado, não? - olha eu aqui: inteira, intensa e viva. Sem arranhões, cicatrizes ou sequelas. Sem depressão. Consigo viver sem você, está vendo? Não foi difícil, mas também não estou afirmando que foi fácil.
Quando me olho no espelho não vejo mais aquela menina sonhadora que você tanto adorava morder o nariz. Ela fugiu junto com o adeus que destes naquela tarde chuvosa de sábado.
Às vezes me questiono se você está bem. Confesso que as últimas informações que tive de ti me deixaram de "boca aberta". Não que eu duvidasse de você, porém as coisas são mais difíceis de acreditar quanto estamos longe um do outro. Tem horas que prefiro simplesmente não saber. Já dizia Lya Luft que "Não saber é o que torna nossa vida possível”. Por isso, existem momentos em que desejo que ela seja possivelmente possível eternamente.
Houve momentos em que achei que a casa andava tão vazia que decidi comprar um cachorro para ocupar espaço - também no meu coração. O nome dela é Bia, um poodle pequeno cor de chocolate que a filha da vizinha me deu. Engraçado, depois de tanto tempo longe de você a única coisa que não consegui mudar foi a minha paixão por crianças e a falta de paciência para com as mesmas.
Agora, espero que você nunca leia essa carta. Não quero que me considere frágil diante da longevidade dos nossos corpos e sentimentos. Não quero ouvir que não me ama mais, que você está "muito bem, obrigado!" e que essa carta não vai te fazer voltar para mim. Eu não quero! Quero que a embole, para quando me deparar com ela novamente - sendo que com aquela cor de café e faltando algumas letras devido à mordida de traças, do tempo e com aquele odor de mofo - possa rir dos meus devaneios juvenis de um outubro primaveril de um mil novecentos e qualquer coisa.

Com todo o mal-humor matinal,
Mariana*.

* Personagem fictício criado por Lorena Rodrigues. Qualquer semelhança com algum fato real é mera coincidência.

6 comentários:

Diversidade.com disse...

Obrigada pela visita!


Belo blog! ótimos textos!


;)

Um beijo!

disse...

A única coisa boa da dor de amor..é que ela passa...

Bjusss
Teu blog tá lindo!

"Sofi@" disse...

E se ele um dia ler a carta?
Já pensaste nisso?
Era bom, na minha opinião, porque ele vai ver o quanto ele era importante para ela, e o quanto ela sente sua falta, mas tudo isso mudou, ela segui sua vida, e ele também. Por vezes em nossas vidas temos que levantar a cabeça e seguir em frente.
Amei a carta.
Beijo

Fernanda disse...

... é engraçado como: mesmo quando não queremos mais e estamos super bem. Ás lembranças voltam pra trazer saudade e um gostinho, mesmo que pequeno, de 'quero de novo'.

Adorei o texto.
beijinho

Pedro Antônio disse...

Ei, Loly!

É um imenso prazer receber a sua visita! Muito obrigado pelo carinho!

O seu blog é lindo! As imagens e os textos fazem a gente sonhar!

Parabéns!

Um beijãooo!

Te espero por lá mais vezes! Até.

Pedro Antônio - A TORRE MÁGICA - www.atorremagica.blogspot.com

João Paulo disse...

Tá muito romantica pra quem acorda de mal-humor. Gosto de ver drama nas entr-elinhas!




Gostaria da sua presença aqui: http://johnnybongos.blogspot.com/

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