domingo, 5 de julho de 2009

Ser interior



Morar no interior é ter como despertador o canto dos pássaros que repousam na janela; é fechar os olhos diante da luminosidade do sol e aquecer-se com o calor do mesmo. É pular o caminho das formigas; sentar-se no jardim de flores cor violeta; ficar chateado por uma amêndoa ter caído em sua cabeça e ainda assim rir porque isso sempre acontece contigo. É repousar na beira do rio e sentir sua brisa quando está fazendo calor – ou até mesmo quando não está -, refrescar-se a sombra de uma árvore, ler o jornal do dia, um livro de Drummond, Jorge Amado ou literatura de cordel. Sentar-se na porta com os amigos até tarde, esquecer as janelas abertas, dar bom dia ao vizinho, fofocar da vida alheia, ir comprar pão a pé e limão na feira.

Morar no interior é conhecer tanta gente, é não gostar de fulano de tal e apaixonar-se pelo filho de seu Joaquim. É namorar na porta dos outros ou escondido - tanto faz -, ouvir o barulho do trem, pegar uma carona, ter medo de atravessar a ponte e correr para não perder a hora, é tomar banho de rio ou ir pescar siri. É comer o pastel de dona Maria e comprar os doces da venda de seu Zé. É pular corda na porta da Bia, brincar de esconde-esconde, sete pedrinhas ou pique-alto. Aos domingos, ouvir estórias de Chico Faria, ter medo do doido da vassoura, tocar campainha e sair correndo, comer pipoca na esquina da escola e contemplar as estrelas no alto do morro da Capadócia ou até mesmo do quintal da avó do Beto – que tem pés de manga, laranja e acerola. É esperar o tradicional São João para enfeitar a rua de bandeirolas coloridas, asender fogueira e assar milho na porta de casa tomando um licorzinho.


Morar no interior é ter uma vida cansada, pacata, entendiante... Ver a poeira fazer redemoinhos no ar e ainda assim ser feliz com toda essa simplicidade rotineira que faz de nós amantes do tempo e apreciadores da vida - na sua máxima essência.

6 comentários:

Thiago Maia disse...

Menina, texto ótimo! Amo morar no interior [sou de Jacobina, BA, mas agora me mudei pra Petrolina, PE].Mas lá também tem um pouco dessas particularidades.

Beijo, e estou seguindo seu blog!
Ótima semana!

Teórico disse...

Excelente texto. Nessas férias vim pra uma cidade do interior e sinto essas coisas que vc tão bem descreve!

beijo

Bruno Alhazred disse...

Pois é, e há quem chame a vida na cidade grande de "progresso". Vai entender...
Ah, sobre o meu post, é verdade sim. A vida é mais bizarra que a ficção :P

comme des habitudes disse...

olá. me chamo leandro e por acaso vi seu blog navegando. achei super interessante. o meu é um misto de história, filosofia e cultura geral. se quiser pode me seguir. abraços!

Mel Costa disse...

Que inveja saudável de você!! Moro na capital e desejo veementemente morar no interior. Degustei o gostinho doce e meigo de suas palavras! Parabéns pelo texto!

Lorena disse...

A crônica que ganhou 10!
Feliz demais.
=D

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