quarta-feira, 15 de maio de 2013

Sem pensar em nada

Nós estávamos na cama, prontos para dormir. Ele - meu irmão de seis anos, o João - do lado direito, com o rosto virado para mim e eu do lado esquerdo, de bruços, com a cabeça virada para o  seu lado. Até que lembrei de pedir a João para me acordar no dia seguinte, já que ele levanta cedo todos os dias para ir a escola. Ele questionou porque eu deveria acordar cedo e eu lhe disse:

- Porque eu tenho que trabalhar, meu amor. Chegar cedo no posto.

- Você tem que chegar cedo se não sua chefe briga com você? – questionou ele.

- Sim, isso mesmo. É que não tenho conseguido dormir, fico com insônia e não consigo acordar sozinha de manhã. Por isso te peço para me acordar.

- Você fica pensando em que quando vai dormir? – perguntou, olhando atentamente para mim.

- Em um monte de coisas... – falei reflexiva.

- Olha, primeiro você tem que deixar a cabeça sem pensar em nada e vai dormir. Tem que deixar o cérebro vazio quando for dormir e cheio quando acordar. – filosofou meu João.

Peguei meu celular e comecei a anotar o que ele havia me dito.

- O que você está fazendo? – Perguntou João.

- Estou anotando o que você disse.

- Isso. Aí você lê isso aí todos os dias, disse.

Olhei para ele e sorri:

- Vou ler todos os dias.

Ainda continuamos conversando sobre outras coisas e eu disse que iria ligar a música no celular, pois me ajudava a dormir. Depois de alguns minutos e silêncio pairou no quarto. Ao olhar para o lado, meu João estava a dormir.

Meu cérebro não estava vazio, mas estava com pensamentos radiantes. Tenho um filósofo de seis anos em casa, que me ensina coisas da vida que eu me esqueço de perceber, notar e refletir. É uma criança que me entende e me sente. Naquele dia tive mais uma noite insônia. Mas dessa vez foi diferente, pois carregada em meus pensamentos um sentimento que não sei explicar, mas que me fez sentir ser a irmã-mãe mais feliz do  mundo! João dá cor aos meus dias.



Ps.: Esta é uma história real.

sábado, 27 de abril de 2013

Para além da televisão: Eu sou o meu padrão de beleza


“Nossas crianças sonham que quando crescer, vai ter cabelo liso”
Isso não pode se perder – Emicida

Cachoeira, 27 de abril de 2013

Meu cabelo é minha coroa que carrego desde a infância.

A televisão nos ensinar a desejar padrões de beleza e consumo que muitas vezes não nos representam. O desejo por aquilo que está na TV nos faz pensar que talvez sejamos mais aceitos pela sociedade, pelos amigos e amigas, por um homem ou uma mulher que temos interesse ou que assim vamos conseguir um bom emprego.

Sinto que é na adolescência que esta influência é mais presente. Principalmente nas propagandas de shampoos e produtos de alisamento e nas novelas e séries. Mulheres lindas, brancas, cabelos sedosos, lisos e brilhantes. Aí você - que também quer ser linda como as mulheres e garotas da televisão - alisa os cabelos. Nossas mães apoiam porque elas também foram influenciadas por este processo. Possa ser que não pela TV, mas talvez pela fala de nossas avós, que seguiam o estilo das sinhás.

São padrões de beleza que estão na mídia e que nós mulheres tanto almejamos: peitos fartos e duros, bundas grandes, corpos magros, “de violão”, cabelos lisos, unhas grandes e bem pintadas, sobrancelhas finas, corpos depilados e roupas caras.

Na minha adolescência busquei também estes padrões. De três em três meses “relaxava” meu cabelo com produtos de alisamento para “abaixar a raiz”. E cresci acreditando que assim seria mais aceita por quem quer que seja. Por mim e pela sociedade (que sociedade afinal?).

Mas ainda não era tudo tão completo porque sofria com mais alguns problemas na aparência: ser baixa e magra, ter o nariz grande e peitos pequenos. Enquanto a ser baixa eu não podia fazer nada, apenas usar saltos – mas eu nunca gostei, pois para mim é totalmente desconfortável. Magra eu sempre fui, mesmo comendo uma montanha de comida, mas tomei estimulantes de apetite para engordar (o que não resolveu muita coisa). O nariz eu dizia que a primeira grana alta que eu tivesse faria uma cirurgia para afinar. E os peitos tinham uma solução. A melhor invenção de todos os tempos: o soutien de bojo! O problema com os peitos pequenos acabaram, pois eles poderiam ser “grandes” com um soutien de enchimento que me deixava super poderosa!

Cabelos – A transição

Certo dia olhei-me no espelho e vi que a raiz crespa (a natural) do meu cabelo crescia. Olhei-me, sorri e decidi: alisamento nunca mais! Pensa que a decisão foi fácil? Não foi!

Tomar essa decisão causou um desconforto na minha família e entre os/as amigos/as e conhecidos/as que virou motivo de burburinhos durante meses. “Não vai relaxar este cabelo?”, “Está feio!”, “Nem parece que você lava esse cabelo”, “Vai pentear este cabelo, menina!”, “Fulano disse que seu cabelo está feio”, “É só para abaixar a raiz”, “Por que não dá um produto para soltar os cachos?”, “Tem um aspecto de sujo”, “Nenhum homem vai lhe querer com este cabelo”. A última frase ficou marcada para sempre em minha memória e me causou muitas lágrimas. Por diversas vezes pensei em desistir de deixar meu cabelo natural e voltar ao padrão quer era seguido por quase todas as mulheres da minha cidade e família (que tinham cabelos crespos).

O cabelo black é o meu padrão de beleza.
Não foi fácil, repito. Não foi fácil porque diversas vezes me senti frágil e porque aprendemos um padrão de beleza que nos diminui enquanto mulheres negras, crespas e sem peito. Mas dei a volta por cima e resisti. E resisto até os dias de hoje! Meu cabelo crespo e black não é inferior a qualquer outro cabelo. Ele é lindo e é a coroa que me faz ser essa rainha que sou. Porque todas nós somos rainhas.

Peito pequeno – A aceitação

Porque eu tenho o peito pequeno? Sempre me perguntei, pois via minhas amigas e colegas de sala com peitos fartos e lindos. A invenção dos soutiens de bojo foi a cartada para resolver o “meu problema”. Tenho diversos modelos, para se adaptar a qualquer tipo de roupa e eu me sentir cem por cento melhor.

Mas então percebi que aquilo tudo era falso e eu estava mentindo para mim mesma. Qual a dificuldade em me aceitar? Daí para frente deixei de escanteio os soutiens de bojo e passei a me aceitar mais, com meus peitos pequenos e lindos, que seguem ao meu padrão de beleza – que vai além da televisão.

Um dia uma amiga me perguntou: “Por que você agora só anda sem soutien?”. Respondi que me sentia melhor assim e sorri para ela. Mas bem que poderia criar um novo manifesto Bra-Burning e queimar todos os soutiens e demais elementos de “tortura” que nos fazem seguir padrões de beleza.

Hoje estou nesse processo de aceitação do meu corpo e não permito que nada me coloque para baixo. Mulheres!, não precisamos ser como nos dizem que devemos ser, mas precisamos ser como somos, lindas da nossa maneira, com o nosso padrão de beleza que nos diferencia e nos fazem ser belas e rainhas!


sábado, 20 de abril de 2013

Correr para o abraço

Não se corre atrás de quem foge da gente o tempo todo.
Melhor é correr para o abraço de quem quer nosso aconchego.


segunda-feira, 25 de março de 2013

Presença

Tua presença me faz bem. Mesmo que calada, mesmo que distante, mesmo em pensamento. Meu coração sofre calado, por querer mais do que se tem. Pelas noites sem dormir, pelos sonhos, pelos desejos. Pelo gostar simplesmente. Tolo é meu coração! Porque ele não percebe que você está aqui. Ao lado meu lado. Todos os dias. Tua presença mesmo que calada, mesmo que distante ou em pensamento.

Ao longe teu canto me dá forças para seguir.


segunda-feira, 18 de março de 2013

Cansei de você

Hoje não vou te ligar. Não vou em sua casa. Não vou perguntar por você. Sabe por quê? Cansei de você. Cansei das suas desculpas, da sua falta de tempo, da sua indecisão. Cansei de tentar adivinhar o que você quer. Se quer a camiseta branca ou verde. Se quer fazer este curso ou o outro. Se quer a caneta preta ou azul. Se tênis ou sandália. Se me quer como amiga ou como mulher. O que você quer de verdade? Difícil? Para mim também é. Cansei. Não quero mais saber.

Tirei meu coração do molho e coloquei para evaporar toda minha esperança em você.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Espia, Maria

Da janela
ela espia
a vida que passa,
o velho,
a criança,
o sol se pôr.

Da janela ela espia
o balanço das folhas,
o tocar do sino,
a baiana do acarajé.
Foto: Lorena Morais

Da janela ela espia
espia, espia
espia tanto a vida alheia
que esquece de viver
a vida que é sua.

Sai da janela, Maria!
Para de espiar a vida do zôtro.

A vida cá fora te chama.

Vem viver, Maria.
Vem me ver!

quarta-feira, 13 de março de 2013

Heroica Cachoeira

Aos verdadeiros heróicos

Cachoeira, minha cidade-mãe, localizada na região do Recôncavo da Bahia. A região fez parte
do ciclo econômico da cana-de-açúcar e fumo do país, durante os séculoS XVIII e XIX.
Foto: Rita Barreto/SeturBA

Aos 13 de março de 1837, a Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira é elevada à categoria de cidade e recebe a denominação de ‘Heroica Cidade da Cachoeira’. O crescimento das exportações, a circulação de pessoas e o desenvolvimento da cidade, baseado principalmente na sua economia, provocaram uma inquietação na comunidade, que almejava este título.

Hoje são comemorados 176 anos de emancipação, um marco político para a cidade. Mas Cachoeira vai muito mais além do que estes mais de 100 anos. Para o povo que aqui habitou e ajudou no progresso da cidade, são mais de 300 anos de resistência.

Cachoeira foi construída pelas nossas irmãs e irmãos que labutaram na construção desses imponentes sobrados e casarios coloniais, que enriqueceram senhores nos engenhos de açúcar, que abasteceram a cidade no ir e vir dos saveiros na Baía de Todos os Santos, que labutaram na pesca no rio Paraguaçu (que hoje não está mais para peixe, né?), nas fábricas de charutos, nas casas das sinhás, na feira livre, no dia-a-dia.

Irmãs e irmãos que fizeram Cachoeira ser quem é, que vai além da arquitetura, mas que é de uma gama cultural e histórica que resiste até os dias de hoje. Que luta por seu espaço, reconhecimento e valorização. Irmãs e irmãos que carregam pedras, cimento, lavam roupa, cuidam do menino, mas que no final do dia ou da semana esquecem a agonia e caem no samba de roda, na pelada do bairro, no batuque de mesa, na maniçoba ou feijoada no fundo do quintal.

Cachoeira é a resistência dos terreiros de candomblé, é o molejo do samba de roda, o balanço do reggae, a festa de largo, a riqueza das irmãs da Boa Morte, a criatividade e sátira da Festa d’Ajuda, o saboroso São João, o ir e vir da Ponte Dom Pedro II, o barulho do trem, a roda de capoeira, as baianas do samba e do acarajé. Cachoeira guarda em si uma energia inexplicável, que atrai e encanta gente de todo o mundo.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Ser anjo



Os olhos dele brilham tanto quanto teu sorriso. Ele não tem asas, nem aréola e não usa túnica branca. Seus cabelos são cacheados, mas não são dourados. Ele não tem asas e não anda descalço o tempo todo. É feito de carne e osso, mas para mim, é um anjo. É um anjo porque me protege, me faz rir, preocupa-se comigo e está sempre ao meu lado. É um anjo porque sua alma brilha, porque me traz paz e me acalenta. É um anjo porque seu sorriso reluz que nem ouro e seu abraço me conforta. Porque me mostra os vários caminhos e me deixa seguir. É um anjo! Um anjo porque simplesmente apareceu na minha vida como se tivesse caído do céu.

sábado, 9 de março de 2013

Ser mulheres

A nossa luta começa todos os dias, ao lidarmos com o machismo e o preconceito. Somos guerreiras no trabalho, na família e na vida. Somos acima de tudo, lindas rainhas!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Página virada


Quando você escreve em um caderno e completa todas as linhas daquela folha, é hora de virar a página. Aí você continua a escrever sobre o tema ou começa outro. Quando você vai escrevendo na mesma folha às vezes bate uma preguiça e a letra fica até fica um pouco feia, mas ao virar a página e ver tudo aquilo em branco você diz “agora vou fazer mais bonitinho, deixar mais organizado”.

Assim é a vida: chega um momento em que você precisa virar a página e deseja fazer melhor. Hoje decidi fazer isso comigo. Completar a minha página, dar um ponto final e começar outro texto.

A vida é feita de histórias que a gente escreve. Histórias felizes, tristes, encantadoras, curiosas... Mas histórias sem fim. Por mais que a gente coloque um ponto final, a vida sempre continua. Mas todo dia é um novo recomeço. Um recomeço dos capítulos da vida, que trazem uma emoção diferente a cada enredo.

Hoje decidi começar outro capítulo. Dar adeus a todos os outros personagens e criar um novo enredo com tudo o que aprendi e vivi. Porque nessa vida a gente sempre carrega um pouco de cada história.

O enredo de agora é: ser feliz e plantar bons frutos, porque a época de colheita está chegando. Vou escrever na minha página em branco a melhor história que puder. Que seja bom pra mim e para os personagens que vão compor o novo enredo. Com papel e caneta vou escrever o meu mundo. Com o lápis de cor vou colorir a minha vida. 

sábado, 29 de dezembro de 2012

Ano novo é o que?


João pergunta:
- Lorena, ano novo é o que? Ele vira? Ele vira como?

Tentei responder esta pergunta ao meu irmão de seis anos. Mas confesso que não consegui. Disse qualquer coisa a ele e até hoje reflito a pergunta que me fez.

Ano novo é o que? Não é uma data no calendário, não é um número na folhinha, não é uma agenda nova, não é vestir-se de branco, não são presentes e lantejoulas. Ano novo não é um show pirotécnico no Farol da Barra em Salvador e nem o ‘Show da Virada’ na Rede Globo de Televisão. Não é um champagne aberto, não é pular as sete ondas na praia, acender velas e abraçar os amigos. O ano novo não está nas horas no relógio e nem em uma mensagem no celular ou uma ligação.

O ano novo está aí: dentro de você. Na vontade de ser novo, de provocar mudanças, de ser diferente e melhor. Na vontade de alcançar seus planos, na sua trajetória infinita da vida, no seu fazer novo.
O ano novo está na oportunidade que damos a nós mesmos de sermos felizes, de darmos a mão ao nosso próximo, da vontade de fazer um mundo melhor nas pequenas coisas do dia-a-dia. Um feliz ano novo não é apenas acreditar, é fazê-lo novo a cada despertar do dia.

Desejo a vocês meus amigos e amigas, colegas, conhecidos/as, leitores/as, pessoas que acompanharam minha trajetória neste ano de 2012, um despertar de um novo ano cheio de boas surpresas. Que em cada janela aberta a gente encontre a esperança de poder fazer tudo novo.


Foto: Lorena Morais

"É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre".

Receita de Ano Novo - Carlos Drummond de Andrade

domingo, 14 de outubro de 2012

A carta que eu nunca te enviei

© Agócs Írisz

Ilha das Flores, 14 de janeiro de 1994

Noel,

Quando você me pediu uma carta, eu nunca quis escrever. Não quis escrever quando morava aqui ao meu lado. Nem quando você foi embora. Nem quando voltou. Não quis escrever quando a gente se amou pela primeira vez e nem pela última. 

E hoje eu te dou esta carta. A carta que eu nunca te enviei. Mas agora você não está mais aqui. Você disse adeus. Mas não aquele adeus que você dizia e voltava. É um adeus sem mais. Sem mais retorno, sem mais beijos, abraços, sem mais amor, sem você. O que restou foi apenas a saudade.

Será que é pedir demais querer quem se ama? O amor não manda carta-aviso, não marca hora e nem lugar pra chegar. Ele simplesmente chega e se apossa de nós. É isso que ele faz comigo. Me faz ter saudades, chorar, querer bem, cuidar e me entregar.

Te quero. Mas não te quero por uma noite ou por alguns dias. Te quero sempre. Inteiro e intenso. Te quero em prosa, romance e poesia. Te quero em comédia, ação e aventura. Te quero formal e informal. Te quero na sala, na escada e na cama. Te quero de dia e a noite. Te quero em meu colo, em meus braços, em meus lábios. Te quero cheia de amor. Te quero enquanto houver amor.

Me toma em seus braços, me chama de menina e me faz mulher. Vem matar essa saudade. A cama está fria sem você. Vamos nos amar sem medo. Sem medo de ser feliz!


Hoje eu abri meu coração. Coloquei cama e sofá pra te receber. Vem me amar mais uma vez.


Com amor, Bia.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Eu também sou criança

João e eu, eternas crianças.
Sou criança quando brincamos de carrinho, quando sento contigo para assistir desenho, quando a gente brinca de joguinho no computador, quando leio pra você e quando a gente se acaba de rir das nossas caretas. Sou criança ao dormir juntinho ao seu lado, ao desenhar, ao tomar banho contigo e competir pra saber quem termina primeiro de comer. Sou criança até quando a gente briga e nossa mãe reclama: “Eu não sei quem é a criança aqui”. Sou criança todos os dias, sabe por que? Porque você está na minha vida todos os dias e me mostra a cada amanhecer a essência infantil, de levar a vida com imensa alegria.

A todos e todas que guardam em si um pouco dessa essência, um feliz dia!

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Acordai, Cachoeira!


Cachoeira, Recôncavo da Bahia. Foto: Lorena Morais
Acordai, Cachoeira!
O dia já raiou
Sente a dor que te faz gemer?
Sente a dor da chibata?

Enquanto comemora a festa dos patrões
Eles festejam a vitória
Pelo maior número de escravos
Por hora conquistados

Você acorda cedo
Para dar dinheiro a eles
E ter comida na mesa
Come e sente fome todo dia
Porque tem que repartir o pouco pão
Para a sua família
Para seu filho que geme
De dor e de fome

Enquanto comemora a festa dos patrões
Eles festejam a  vitória
Do seu império que continua
Do seu poder que não caiu

Acordai, Cachoeira!
O dia já raiou
E mais um dia de trabalho também
Sente da dor da chibata?
- Já estou acostumada com o chicote,
Mas preciso alimentar minha família, Sinhá
Que geme de fome e de dor

Lorena Morais

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Para as mulheres a luta não para nunca

- Bom seria se no Brasil somente mulher trabalhasse  - disse Homem X.
- Por que? - questionou Homem Y.
- Porque mulher ecebe menos, mão de obra barata.
- E quem disse que mulher tem que ganhar menos que o homem? – perguntou Homem Y, indignado.
- Por exemplo – falou Homem X -, mulher não tem condições de ser carpinteira. Mulher tem que ser recepcionista, enfermeira, advogada. Ela não sabe exercer a construção civil.
- Tem serviços que a mulher saber exercer melhor que o homem – destacou Homem Y.
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Esse pensamento pode ser de seu marido, irmão, amigo ou vizinho. Também pode ser de qualquer pessoa ignorante – é assim que o classifico. Este comentário surgiu em uma ida a Feira de Santana|Bahia, dentro de um transporte alternativo. Um dos passageiros (Homem X) fez esse comentário com o motorista (Homem Y). Eu me mordi para não entrar na conversa, mas depois percebi que não valeria à pena.

Esse homem não é diferente de muitos. Mas é fato que os baixos salários é uma realidade nossa. De acordo com levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o salário das mulheres no Brasil é 28% menor do que dos homens. Uma lástima, já que as mulheres ocupam os melhores cargos, exercem as melhores profissões, lideram empresas, famílias e a presidência.

O mito da mulher cuidadora e dona do lar caíram por terra, afinal temos os mesmo direitos que os homens. Falo de direito a salários dignos e iguais, ocupar cargos de chefia e principalmente o direito a voz.

A você pedreira, cozinheira, engenheira civil, jornalista, carpinteira, gari, empregada,  médica, professoram, caminhoneira etc. A você mulher que exerce sua profissão com total dedicação, vamos mostrar que podemos fazer diferente sempre e façamos todos esses homens engolirem suas palavras de machismo e se curvarem diante de nós.

A luta não para nunca! Continua a cada dia que você acorda, se olha no espelho, quando alguém mexe com você na rua por causa de sua roupa, quando dá a luz a uma criança, quando amamenta, quando chega em casa exausta, quando ganha um prêmio por algum ato relevante, continua porque você é mulher!

domingo, 13 de maio de 2012

Amor de mãe


Mãe e irmão caçula (meu filho).

Ela abdicou da sua juventude para criar duas crianças e dedicar um amor incondicional. Quantas noites sem dormir, quantas idas ao hospital, quantas festas de aniversário, quantas viagens, quantas broncas e conselhos...

Foram momentos maravilhosos e a cada dia tenho a certeza de que Deus colocou mesmo um anjo da guarda na minha vida, que eu chamo de mãe. Um anjo que nunca me abandonou, que nos momentos que eu mais preciso vem me amparar e me conhece como ninguém! Sabe da minha dor até no meu silêncio. Como eu queria estar ao seu lado agora, para sentir seu afago e dizer o quanto minha vida não teria sentido sem você!

Mainha, é pra você este dia (e todos os outros), que é minha mãe e também me proporcionou a dádiva de sentir um amor maternal, ao me presentear com um irmãozinho... Ou meu filho, porque eu também sou mãe!

Feliz Dia das Mães ♥


domingo, 25 de março de 2012

João: Meu pequeno grande herói


É tão lindo te ver acordando e vir me dar um abraço de bom dia antes de ir para a escola. Te ver chegar suado me contando as novidades. Me pedir para te ajudar a comer, para ler histórias, dar banho ou fazer mingau.

É tão lindo quando você me chama para brincar de carrinho, bola ou montar o quebra-cabeças. Quando me faz suas perguntas mais inusitadas, quando sorri pra mim com suas janelinhas na boca e quando me dá aquele abraço gostoso e mil beijos. Quando faz carinho e diz que me ama.

É lindo também até as nossas brigas, porque depois a gente faz as pazes e pede desculpas um ao outro. É lindo velar teu sono. É lindo sua alegria ao me ver. É lindo ter você na minha vida.

Não sei a magia em ser mãe, mas se for mais ou menos o que eu sinto por ter você comigo, então sou a mãe-irmã mais feliz do mundo!

VOCÊ DÁ COR AOS MEUS DIAS! (até nos mais cinzentos. rs)

João é meu irmão caçula e tem cinco anos.

* Te amo!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Diário de um Paraguaçu


Saveiro no rio Paraguaçu. Foto: Lorena Morais


Nasci lá das bandas da Chapada Diamantina, num lugar chamado Serra do Cocal. Fiz todo um percurso de curvas, idas e vindas, grandes encontros até chegar ao Recôncavo, um território de boas energias e que me acolhe muito bem. Na verdade me encantei por um vale. Vale que leva meu nome e que abriga as duas cidades mais expressivas e que me fizeram famoso até fora do Brasil! 

Meu nome é de origem indígena e retrata bem o que sou: “mar grande” de água doce. Sou o Paraguaçu, o rio que corta a heróica Cachoeira na margem direita e sua vizinha irmã São Félix, à margem esquerda.

O caminho é longo até chegar ao mar. Passo por diversas comunidades ribeirinhas que fazem de mim seu alimento e ganha pão: Nagé, Coqueiros, Maragojipe, Santiago do Iguape e tem também São Francisco do Paraguaçu. Por esses lados de tudo dou: caranguejo, peixe e marisco... De vez em quando até camarão, que tem que ser na época certa, pra não acabar com a família. O pescador sai cedinho no balanço da maré e marisqueira sabe bem a hora de meter a mão no mangue e tirar a ostra. 
Marisqueira. Foto: Marília Marques

Na minha margem tem engenhos, igrejas, fortes e casarios da época colonial, que retrata a história de um Brasil de outrora colonizado por Portugal. 

Tenho a proteção de duas mães, a Iara e Iemanjá, porque minhas águas se misturam num emaranhado doce e salgado da vida.

Meu braços são longos, vários afluentes por aí navegam para dar água a quem lava roupa ou pra carregar na cabeça o balde quando água falta.

Mas também já causei algumas tristezas. Por duas vezes São Pedro esqueceu a torneira do banheiro aberta e a água caiu toda aqui embaixo. Não consegui dar conta e foi água pra tudo quanto é lado. Dona Maria perdeu os móveis, entrou água na venda de seu Evandro e Banzé ficou sem ir a escola. Carmelita teve que ir correndo pra roça levar seu colchão na canoa. Mas Chico adorou ver aquela água toda e chamou a garotada pra subir no barquinho do seu pai, seu João, e ver o arco-íris.

Depois que construíram uma tal de barragem Pedra do Cavalo tudo mudou... e eu aprendi direitinho a cuidar do volume da minha água.

Quase me esqueço de contar que toda vez que olho pra cima me encanto tanto com a beleza das duas cidades que reflito em meu leito. Um moço, que também gostava muito das irmãs, decidiu unir as cidades construindo um linda ponte que levou o nome dele: Dom Pedro II. Cara importante esse aí, um rei que já navegou em minhas águas.
Ponte D. Pedro II sob o rio. Foto: Lorena Morais

Esse rio que vos fala já suportou grandes e importantes embarcações, pra levar carga de charutos lá para a bandas do Pacífico. Pra trazer e levar gente pra Baía - como era chamada Salvador. Para trazer alimentos, roupas, acessórios e abastecer os mercadinhos. O vaporzinho por muito tempo já navegou, e admirou a paisagem que sempre preparei para recebê-lo. Os pássaros cantavam, as ondas batiam nas pedras, a criança corria a seu encontro... 

Já sorri muito por tudo o que vivi, mas hoje choro porque não sou mais o Paraguaçu daquele tempo. Acho que esqueceram de dizer que rio não é lixeira, ou se dizem, as pessoas não se importam e continuam a me sujar com esgoto, latinhas de alumínio, garrafa pet, pneu velho, sapato furado... Estão desmatando a mata ciliar, tem peixe mudando de rio, tem gente acabando com o leito de meus riachos...  Às vezes meu odor é insuportável, mas não porque não me cuido, mas quem tem que cuidar de mim é você! 

Tem muita terra, ficou tudo raso, embarcações grandes não navegam mais por aqui... O vaporzinho esqueceu o caminho, “não navega mais no mar”, não navega mais no rio... 


• Esse texto foi publicado no jornal laboratório da UFRB Reverso Ecologia & Meio Ambiente nº 45

domingo, 5 de junho de 2011

A morte da amendoeira: o manifesto


Lembro como hoje, das vezes que – quando criança – brincava no jardim próximo a minha casa, na praça Doutor Milton – , onde está localizado o hospital de Cachoeira.

O homicídio:
a "phoda" realizada em maio de 2010.
Foto retirada do blog Cachoeira Online.
Na minha época de criança brincava com os amigos de bola, bicicleta, patins, picula, mas a brincadeira preferida para mim era “comidinha”. Pegávamos as folhas que ficavam ao chão das duas amendoeiras que existiam no jardim, flores e outras folhas mais para fazer nossos pratos super coloridos... Lembro até no dia em que resolvemos fazer suco de amêndoa! (risos)

As árvores também serviam para fazer sombra aos namorados, que muitas vezes eram adolescentes que 'fugiam da aula' no Colégio Estadual da Cachoeira – CEC - para ir namorar na praça ao som das músicas da rádio poste Franco Publicidade que tinha uma caixa instalada no topo da amendoeira...

Hoje, no dia mundial do meio ambiente, choro por essa amendoeira que a exatamente um ano – completado no mês de maio - sofreu um homicídio, que foi gerado pelos 'podadores' da Prefeitura Municipal de Cachoeira. Daquela árvore foram tirados todos os galhos e folhas, sobrando somente seu tronco. A destruição foi tão drástica que um imenso pedaço de galho caiu num banco da praça, que foi dilacerado pelo peso.

Muitos foram os revoltosos, mas confesso que nos omitimos. A revolta ficou expressa somente na rede virtual, com uma publicação no blog de Cacau Nascimento da foto da “phoda” e um texto.

Desde aquele dia a amendoeira perdeu sua vida. Nunca mais brotou de seu tronco galhos ou folhas. Não podíamos mais namorar  a sua sombra ou brincar de comidinha com suas folhas, fazer suco de amendoa....

Ela foi se deteriorando, perdendo sua cor e seu brilho. Perdeu sua vida por erros alheios. Por causa de pessoas que não sei porque 'cargas d'água' se dizem podadores e ainda são empregados por nossa gestão municipal.

Essa semana, ao sair de casa, me deparei com seu tronco cortado, ao chão... Já sabia que ela estava morta, mas foi ainda mais triste ver seu corpo tirado do lugar de onde nasceu...

Lamento por essas pessoas que não reconhecem um valor de uma árvore, que garante nosso oxigênio, que sente tanto quanto nós quando é ferida. Mas que infelizmente não tem força pra gritar... só chora.

Repudio esse e qualquer ato que venha ferir nosso meio ambiente... eis o meu manifesto.

O sepultamento:
ao fundo, o tronco de onde foi retirada.
Foto: Lorena Morais




ESTOU DE LUTO PELA MORTE DA AMENDOEIRA!


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