segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Que cabelo é esse?

"Mas verdade é que você/ Tem sangue crioulo/ Tem cabelo duro/ Sarará crioulo"
Olhos coloridos.Composição: Macau


Estava caminhando por minha cidade em um belo dia de domingo, quando de repente ouvi um grito oriundo de um carro: "Vai pentear o cabelo, menina!". Sabia que era comigo aquela afronta. No início tentei ignorar, mas logo em seguida fiz um gesto obceno (é isso, mesmo, querido leitor, desci o nível) e gritei ao vento que aquilo era um estilo, diferente dele, que não tinha.
Logo depois, refleti os diversos tipos de preconceitos que sofri ao longo da minha escolha pelo estilo black power. Cresci vendo minhas amiguinhas e mulheres da família com seus cabelos alisados, estilo europeizado. Segui essa tendência também na adolescência, mas daí iniciei a busca pela minha identidade, pelo estilo que me fazia bem. Então parei de dar produtos de alisamento nos meus cabelos.
Pensa que foi fácil? Não foi não.
Primeiro passei pela crítica e não aprovação dentro de casa, depois na família, no grupo de amigos, na cidade, no trabalho, enfim... Tinha chorado várias vezes pelas coisas que ouvi. Uns diziam que eu estava horrível e outros que tinham adorado meu novo visual. Certa vez uma pessoa me disse que nenhum homem iria se interessar por mim, por causa do estilo do meu cabelo.
Afirmar-se como tal não foi tarefa fácil. Hoje me aceito muito mais, mas ainda doem certos comentários como o citado no início. Dói porque as pessoas ainda não compreendem que somos livres para adotarmos que estilo quisermos. De que nascemos com cabelo crespo, ondulado, liso e é uma opção nossa afirmá-los ou não.
Quem disse que o cuidado com o cabelo black não dá trabalho? Dá, e como dá! Tem que ser shampoo específico, hidratação, corte, creme para pentear... Enfim, também o penteamos! Não todos os dias, mas quando julgarmos necessário. Ainda existe nas pessoas o pensamento europeizado, de que cabelo feminino tem que ser liso! Mas não seguirei mais essa "lei". Usarei meus cabelos ao vento sempre, em qualquer lugar que for. Sou negra, cabelo duro e não tenho vergonha de afirmar essa condição. Adotar esse estilo é para os que têm coragem.

Todos somos livres para escolhermos que estilo adotar. Se você preferiu fazer escova, baby liss, chapinha, trança ou colocar mega hair, eu escolhi meu CABELO BLACK POWER!


2 comentários:

Denise do Egito disse...

Lorena
Eu acho que hoje em dia é mais fácil, né? Há mulheres lindas, negras, com seus cabelões encaracolados como a Taís Araújo, por exemplo. Dou a maior força e acho muitíssimo esquisito as filhas do Obama com aqueles cabelinhos de chapinha. Aliás, lá nos EUA, já se levantou essa questão em relação à família.
Um beijo pra você

Jô Moraes disse...

Lindo seu texto, seu protesto, seu cabelo. Sofro do mesmo mal, sou branca, sou alta, tenho curvas, e um cabelo encaracolado que me faz ter orgulho das minhas raízes, dos meus avós pernambucanos, negros.

Querida, saudades de você. Um beijo e muita paz e fé. Estou de casa nova, já viu?

Cheiro

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